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Ensaio de um adeus

Ficção e realidade se misturam, não é mesmo? Francisco e Lívia assistiam “Ensaio de um adeus” quando a janela bateu com força por conta do vento. Os dois pularam do sofá assustados. O vento precedia a tempestade que viria mais a noite. - O céu vai se desmanchar em chuva. – Comentou Lívia, levantando-se para fechar a janela. Francisco riu. - Desde quando você não gosta de uma tempestade poética? – Perguntou ele, irônico. Lívia parou onde estava e a meio passo da janela, pegou a almofada da cadeira que ficava ali perto e jogou no namorado. – Ai! – Reclamou ele. – Grossa. - Desde nunca. – Respondeu ela, conseguindo finalmente trancar a janela, depois de três ou quatro tentativas frustradas. – Mas, meus pais não são grandes fãs da chuva aqui dentro de casa, principalmente quando se trata desta poltrona histórica. – Lívia deu dois toques no encosto da cabeça antes de voltar a sentar ao lado dele. - Quantos anos têm a “poltrona histórica”? – Perguntou Francisco, imitando o jeit...

Dois

Não faz parte da história da Menina e do Sábio: Era noite de lua cheia. Alegria voltava para casa de ônibus. Ela olhava para o céu através da janela, imersa em seus retalhos coloridos. A tristeza de um passado recente, que foi embora cedo demais, acompanhava Alegria do sol a lua, preenchendo aquele dia do segundo mês sem o “dois”, o “dois” sem forma, cor ou som. Quanto mais o céu corria, mais saudade do Amigo, ela sentia. Porque observando o azul escuro e as cores ao redor, Alegria percebia: a cidade estava cheia de lembranças dos dois, lembranças felizes, em que os sorrisos e as gargalhadas foram os protagonistas daquelas cenas, hoje tão distantes. Mas, revivê-las no presente, naquela volta solitária para casa, não faziam dela, uma boba sorridente, e sim uma luz tristonha e sem esperança.   - Quando a dor irá embora - Perguntou desesperada para Lua. Infelizmente, a Lua não sabia. Só o vento ponderava: - Quando as palavras não formarem mais perguntas como esta em seu coração?!

Feliz aniversário, "A Menina e o Sábio"!

Hoje o blog completa um ano de estrada e eu só tenho a agradecer.

Homeostasia

Things change, doesn't mean the get better - Gregory House Esse conto que escrevi é inspirado em uma aula da minha amiga Tassinha sobre interação fármaco-nutriente e em uma consulta com meu psiquiatra José Waldo. – Sabe o porquê de você estar deprimida, jovem Menina? – Perguntou o psiquiatra, enfatizando a palavra “porquê”? A Menina chorava e, já sem voz, preferiu esperar que ele voltasse a falar. – Porque aqui – O médico apontou para sua cabeça – Porque você precisa de tempo para se acostumar ao presente. Precisa entender que o passado foi embora e que ele, por mais doloroso que seja admitir, talvez não volte para se tornar futuro. – A Menina enxugou mais uma vez as lágrimas. Elas não obedeciam a suas ordens e continuavam transbordando através de seus olhos. – O passado tornou-se tão diário que quando parou de aparecer todas as manhãs, deixou um vazio, deixou a parte emocional da razão sem energia. – Apesar de falar de maneira metafórica, o médico sabia que a Menina entendia. El...

A Ventania...

Dedicada a Sabedoria, que mesmo depois de tantas palavras, ainda me escuta falar sobre o ponto de interrogação.  Alegria conversava com a contadora de piadas sobre aqueles dias sufocantes, sufocantes porque a incerteza não a deixava respirar. Ela guardava tanta energia dentro de si - daquelas que fazem o coração comprimir - que precisava gritar para sentir-se mais aliviada. Por isso, no estacionamento onde estava, Alegria pediu a Deus um sinal, atraindo olhares desconhecidos e desentendidos. Meio segundo depois ou até menos, veio o vento. Não o vento diário, mas um Vento diferente com toda força e caos de uma ventania. A desconhecida que ouvira as palavras da Alegria, chamou a atenção dela e da amiga, dizendo: - Você queria um sinal? Ele veio.  –  A moça falava da estranha ventania, apontando para o Céu. Envergonhada, Alegria agradeceu ao telhado azul do mundo inteiro e foi embora pensando nas palavras da jovem não conhecida. Será mesmo que o vento deixara um recad...