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Resposta ao estresse em vertebrados (PARTE 2)

 


21 de janeiro de 2026

Três segundos, quatro segundos, cinco segundos.

Aurora sabia o que Afonso queria dizer. Talvez Aurora já soubesse o que Afonso sentia antes mesmo de ouvi-lo dizer aquelas palavras. Talvez Aurora já soubesse inconscientemente dos próprios sentimentos, porque, naquele momento, ela percebeu que era recíproco durante todo o tempo que os dois compartilharam nas últimas duas semanas. Mas uma coisa Aurora não sabia: como lidar com aquela situação. Ela ainda não estava preparada para encarar os sentimentos descobertos, conscientemente, por, pelo menos, cinco minutos. Aurora precisava de um pouco mais do que isso para assumir o que sentia, para reunir coragem o suficiente para o momento que chegaria. Então, ela perguntou, ainda olhando nos olhos dele:
– Sabe o que também é importante na resposta ao estresse em vertebrados? Além da reação de luta ou fuga, quero dizer. – Afonso franziu o cenho e semicerrou os olhos por alguns poucos segundos. Ele não sabia onde Aurora queria chegar. Estaria ela fugindo? Pelo tom de voz trêmulo das palavras, ela parecia muito nervosa. – Ou melhor, existe um componente muito importante da resposta ao estresse que é quase sempre subestimado... – Uma expressão de reconhecimento passou pelo rosto de Afonso, fazendo-o se ausentar mentalmente por alguns segundos. Ele não sabia o caminho que a conversa seguiria, mas decidiu embarcar no que quer que Aurora estivesse propondo. 
– O congelamento, mas a maioria das pessoas prefere utilizar o termo em inglês: freezing...
– Exatamente! – Confirmou Aurora. Ela desviou o olhar e encarou o que tinha atrás de Afonso. Ele permaneceu olhando para ela. – Sabia que o congelamento é um estado único que, ao detectar uma ameaça, permite a coleta de evidências, a antecipação de possíveis respostas e a preparação para o pior cenário de luta ou fuga? – Afonso não respondeu. Esperou Aurora continuar. – Alguns autores propõem que, em vez de refletir um estado de medo passivo, as características somáticas e cognitivas específicas do congelamento ajudam a ocultar respostas evidentes, ao mesmo tempo em que otimizam o processamento sensorial e a preparação para a ação. – As informações que Aurora trouxe não eram desconhecidas por Afonso. Como Aurora sabia, Afonso amava adquirir conhecimento, fossem eles úteis ou não. 
– Li algo muito similar. – Disse Afonso. – O trecho dizia mais ou menos o seguinte: o congelamento não é um estado passivo, mas sim um freio parassimpático do sistema motor, relevante para a percepção e a preparação da ação.
– Então você entende… – Afonso ainda não entendia. Ele franziu o cenho e semicerrou os olhos novamente. – Nesse momento, Aurora voltou a olhá-lo nos olhos.
– O que quero dizer é que, no momento, eu estou paralisada. Estou me preparando para a ação. Mas estou me preparando para lutar; não para fugir.
– Você está se prep… – Então, Afonso entendeu o que Aurora queria dizer. Ela não estava fugindo dos sentimentos dele. Ela estava reunindo coragem para encarar de frente os próprios sentimentos. Ao constatar isso, Afonso sorriu.
– Sabia que dois estudos independentes, realizados com civis não selecionados e recrutas da polícia, revelaram que a preparação para decisões de disparo sob ameaça está associada ao congelamento postural, à bradicardia, à atividade do mesencéfalo (incluindo o cinza periaquedutal – PAG) e à conectividade entre o PAG e a amígdala? – Aurora se sentiu aliviada ao ouvir Afonso falar sobre disparos (o que era estranho) e não sobre os sentimentos que experienciava. 
– Primeira vez que ouço falar desses pormenores. – Comentou Aurora.  
– A atividade mais intensa no mesencéfalo/PAG durante essa fase preparatória de congelamento era indicativo de um disparo preciso e mais rápido posteriormente. – Aurora sorriu. 
– E o que mais esses estudos revelaram? – Afonso ponderou por alguns instantes. Tinha muito a dizer. 
– A transição da preparação para o disparo ativo foi associada a taquicardia, atividade do córtex cingulado anterior perigenual (pgACC) e conectividade entre o pgACC e a amígdala. – Aurora voltou-se para a página do caderno, esquecido há algum tempo, e fez algumas anotações. Afonso parou para que ela pudesse registrar tudo o que achasse interessante naquelas linhas em branco, sem, no entanto, tirar os olhos dela. Quando Aurora terminou de escrever, Afonso voltou a falar. Ela olhava em seus olhos novamente. – Esses resultados sugerem que a atividade do mesencéfalo antecipatória à ameaça, centrada no PAG, apoia a tomada de decisão ao facilitar a preparação para a ação e destaca o papel do pgACC na transição da preparação para a ação.
– Essa sigla é tão contraproducente. – Disse Aurora. Afonso riu.
– Contraproducente… Palavra bonita. Não sei, no entanto, se o uso está correto nesta frase. – Aurora fez uma careta. Afonso riu novamente. – E falar córtex cingulado anterior periaquedutal gastaria muito mais tempo. – Contra-argumentou Afonso.
– Não sei se seria tanto tempo a mais assim. Além disso, parece-me muito mais fácil de lembrar, porque faz sentido. 
– São só cinco letras! – Apontou Afonso. Aurora riu. 
– Que formam um trava-língua. Como é a sigla mesmo?
– pgACC.
– pgACC. – Aurora falou a sigla em voz alta, “experimentando” a sensação de dizê-la, pelo menos, uma vez. – Não gostei. – Afonso revirou os olhos e sorriu.
– Acho que isso ficou bastante claro.
– Talvez eu tenha exagerado um pouco… Que informações você ainda tem para compartilhar comigo? 
– Sobre freezing? Dos citados dois estudos? – Aurora assentiu. – Nada inédito. Apenas a conclusão de que esses resultados fornecem evidências empíricas do papel de reações defensivas, como o congelamento, na tomada de decisões de ação subsequentes, como comentamos no início.
–  Eu sei que em situações de risco, o tempo de congelamento não pode ser nem tão curto nem tão longo…
– Não estamos em uma situação de risco. Leve o tempo que precisar para entrar em ação, para lutar.
– Será que poderíamos então concluir a resposta ao estresse em vertebrados? Ainda não conversamos sobre a ação das catecolaminas nos mamíferos nem compartilhei o que descobri sobre o eixo HPA ou HPI. – Aurora verificou o relógio de pulso e viu que ainda não eram nem 12:30. O almoço poderia esperar um pouco.
– Está com fome? – Perguntou Afonso. Aurora negou com a cabeça ainda baixa, antes de voltar a olhá-lo nos olhos. – Também não. – Confessou ele. – O que você descobriu sobre os mamíferos? – Perguntou Afonso. Aurora sorriu.
– Deixe-me pensar por onde começar. – Pediu Aurora. Afonso esperou. – Preparado? – Ele assentiu. – Em mamíferos, fatores estressantes específicos, como calor, frio, hipoglicemia, exercício físico, hemorragia e desafios psicológicos, exigem respostas específicas. 
– Fatores diferentes provocam respostas diferentes? 
– Exatamente! Diferentes fatores estressantes provocam diferentes padrões de ativação, fechando ciclos de retroalimentação negativa. A regulação da liberação de adrenalina e noradrenalina é altamente específica. Por exemplo, a hipoglicemia e a imobilização provocaram principalmente a liberação de adrenalina; enquanto o frio e a dor induziram a liberação de noradrenalina.
– Acho que precisamos urgentemente saber mais sobre a enzima PNMT.
– Concordo com você. Ainda não está claro para mim se a transformação de noradrenalina em adrenalina significa alguma coisa.
– Também não está claro o porquê de alguns estímulos provocarem preferencialmente a liberação de adrenalina e outros a liberação de noradrenalina.
– Será que tem a ver com a via de ativação ou com a intensidade?
– Não sei! Mais uma coisa para você pedir ao seu pai para averiguar. – Aurora riu.
– Acho que perguntarei à minha mãe também. Uma juíza certamente já lidou com casos que envolviam catecolaminas.
– Certamente. Isso é tão provável quanto meus pais, uma socióloga e um engenheiro cartográfico, terem se deparado com esses pormenores fisiológicos.
– Ou seja, muitíssimo provável. – Agora, os dois riam. – Então, onde estávamos?
– Na PNMT!
– E na liberação preferencial de adrenalina ou noradrenalina. – Afonso pegou o celular do bolso e fez uma rápida pesquisa. Aurora esperou. Demorou alguns minutos, não mais que dois. – Que interessante! Afonso mantinha os olhos fixos no celular.
– O quê? – Aurora se aproximou de Afonso para enxergar o que ele lia. Os dois se olharam nos olhos depois da constatação da proximidade, mas logo voltaram a atenção ao artigo projetado no celular dele. Afonso leu em voz alta. – Durante uma estimulação estressante, uma enorme quantidade de adrenalina (cerca de 95%) e uma quantidade significativa de noradrenalina (que pode chegar a 30% do total de noradrenalina circulante) podem ser liberadas pela medula adrenal. – Afonso parou uns segundos para pensar no que aquelas palavras queriam dizer. – Acho que aqui, os autores falam do SAM, né?
– Acho que sim. – Concordou Aurora. 
– Os 70% restantes de noradrenalina são liberados pelos terminais nervosos simpáticos e entram nos capilares sanguíneos a partir do local de liberação na junção neuroefetora. – Finalizou Afonso. 
– Resumindo, durante o estresse, o aumento da adrenalina plasmática é derivado quase que totalmente da medula adrenal, enquanto a maior parte da noradrenalina plasmática (cerca de 70%) é derivada dos nervos simpáticos. – Concluiu Aurora. Ela se afastou de Afonso, mantendo a mesma distância segura que separava os dois antes da aproximação descuidada. Aurora, mais uma vez, pegou o caderno de informações e anotou aquelas descobertas interessantes. Ela decidiu que o tópico merecia mais atenção e que voltaria a ele mais vezes. Ao terminar de escrever o que queria, Aurora voltou a olhar Afonso nos olhos. Ele já tinha deixado o artigo projetado no celular de lado e a encarava. – Acho que já falamos o suficiente da liberação das catecolaminas. Está na hora de começarmos a analisar o eixo HPA ou HPI.
– Por onde deveríamos começar?
– Acho que poderíamos resumir o que acontece nesse eixo de maneira geral…
– Primeiro, o núcleo paraventricular do hipotálamo secreta o hormônio liberador de corticotrofina…
– O CRH!
– Essa sigla é um trava-língua para você? – Perguntou Afonso. Aurora riu.
– É tão usada que não me incomoda. Onde estávamos mesmo?
– No CRH!
– Além do CRH, o núcleo paraventricular (PVN) do hipotálamo libera a arginina vasopressina (AVP)
– Ou arginina vasotocina (AVT), dependendo da espécie.
– Você é muito sabido. – Disse Aurora, em um tom de voz mais doce. Afonso ficou vermelho, mas, apesar disso, não se deixou paralisar. Continuou a compartilhar as informações que adquirira ao longo dos anos.
– Em resposta, eles estimulam a liberação do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) pela hipófise, o que, por sua vez, estimula a liberação de glicocorticoides pelo córtex adrenal…
– Ou tecido interrenal, dependendo da espécie.
– Você é muito sabida. – Imitou Afonso, fazendo Aurora rir. Ela também ficou vermelha, mas não se deixou paralisar.
– Os glicocorticóides, livres ou ligados às globulinas de ligação aos corticosteroides (CBG)...
– Outra sigla agradável, suponho eu, já que é bastante utilizada.
– Agradável é uma palavra muito forte para descrevê-la. – Afonso riu e esperou Aurora retomar de onde parou.
– Os glicocorticoides circulam então pelo plasma até atingirem seus tecidos-alvo e interagirem com dois principais receptores intracelulares. Você os conhece? – Perguntou Aurora. Afonso fez uma careta. Ele sabia que era provocação dela.
– Sim, eu os conheço. Existem dois tipos principais, os receptores de mineralocorticóides (MR) e os receptores de glicocorticóides (GR).
– E como eles agem?
– Eles precisam formar homodímeros ou heterodímeros para funcionar. 
– O que mais você sabe a respeito deles? – A essa altura, Afonso já tinha se rendido.
– Os MR e GR estão presentes em proporções diferentes em diferentes tecidos. – Afonso fez uma pequena pausa para resgatar o que mais sabia sobre glicocorticoides. – Uma vez dentro da célula, os glicocorticoides podem ser desativados pela 11-beta-hidroxiesteroide desidrogenase (11B-HSD) tipo 2, e os metabólitos podem ser reativados pela 11B-HSD tipo 1. – Aurora sorriu ao ouvir Afonso compartilhar um pouco daquilo que conhecia, mas ele estava tão empolgado que nem percebeu como a Vizinha Curiosa o observava, encantada. – Os glicocorticoides afetam muitos tecidos do corpo. No cérebro, por exemplo, eles exercem efeitos de retroalimentação negativa tanto na hipófise quanto no hipocampo e podem estimular a amígdala a aumentar a liberação de glicocorticoides.
– Resumindo, o hipotálamo libera CRH e AVP ou AVT, que estimulam a liberação de ACTH. A liberação de ACTH estimula a liberação de glicocorticoides, que atuarão em seus tecidos alvos. – Aurora fez uma pausa estratégica antes de continuar. – Você conhece quais os principais corticosteroides liberados em resposta ao estresse? 
– Cortisol e corticosterona. Inclusive, a maioria das espécies depende principalmente do cortisol (por exemplo, peixes e a maioria dos mamíferos, incluindo humanos e mamíferos marinhos) ou da corticosterona (por exemplo, aves, répteis, anfíbios e alguns roedores), embora ambos possam ser encontrados na maioria das espécies e algumas espécies dependam de uma mistura dos dois (por exemplo, algumas espécies de roedores). 
– Mais uma pergunta para fazermos aos nossos pais: por que alguns liberam preferencialmente cortisol, e outros, corticosterona?
– Que eles obviamente saberão responder! – Brincou Afonso.
– Lógico. – Aurora concordou.
– Além dessas informações, o que há de interessante nesse livro sobre eixo HPA?
– Ele descreve a cascata CRH/AVP ou AVT-ACTH-Glicocorticoides de maneira mais detalhada do que nós. São muitos pormenores. Acho que não valeria à pena descrevê-los. É informação demais.
– Eu adoraria escutar. – Ainda olhando nos olhos de Afonso, Aurora procurou sinais de que ele não estava falando sério, mas não encontrou. 
– Farei o seguinte, então: falarei dos pormenores do eixo utilizando os peixes como exemplo. De acordo? – Afonso assentiu. – Como já comentei anteriormente, nos peixes, o eixo é conhecido como HPI. O estresse ativa os neurônios hipofisiotróficos do núcleo paraventricular do hipotálamo, levando-os a secretar AVT e CRH. Esses hormônios libertadores estimulam a hipófise anterior a produzir pro-opiomelanocortina (POMC), que é subsequentemente processada em ACTH, e liberada na corrente sanguínea. Ao atingir o rim cefálico, o ACTH se liga ao receptor de melanocortina 2 (MC2R) nas células produtoras de cortisol, ativando a proteína reguladora aguda da esteroidogênese (STAR) para a geração de corticosteroides. Como já conversamos, o cortisol é o principal corticosteroide em peixes.
– A repetição de uma informação leva a fixação. – Comentou Afonso. Aurora riu. – O que foi?
– Que afirmação aleatória!
– Só estou reforçando que você é uma ótima professora. – Aurora ficou vermelha mais uma vez. Afonso riu.
– Não são tantos pormenores assim.
– São três siglas a mais. Isso é muito, se quer saber minha opinião. E eu nem falei sobre o que vem antes do hipotálamo…
– E o que vem antes? – Perguntou Afonso, mesmo sabendo a resposta. Ele gostava demais de ouvi-la falar.
– Um artigo diz o seguinte: “Áreas do cérebro responsáveis pela interpretação de estímulos externos e/ou internos (como, por exemplo, a amígdala e o hipocampo) enviam sinais neuronais ao hipotálamo (principalmente ao núcleo paraventricular)”. 
– Ainda acho que são poucos pormenores. – Aurora revirou os olhos, fazendo Afonso sorrir. – Você já ouviu aquela música que canta “E o pulso ainda pulsa”?
– Dos Titãs? – Afonso assentiu. – Já sim… Mas o que ela tem a ver com o eixo HPI?
– Você se lembra da letra? – Aurora tentou resgatar a letra em sua memória, mas só conseguiu recordar alguns substantivos soltos que faziam parte da composição. Afonso pegou o celular novamente para procurar a letra (ele também não lembrava dos versos com precisão) e cantou de maneira desafinada. Aurora segurou o riso: – Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia. Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia. Brucelose, febre tifoide, arteriosclerose, miopia. Catapora, culpa, cárie, cãibra, lepra, afasia.
– Essa letra é genial.
– Também acho!
– Mas ainda não sei o que ela tem a ver com o eixo HPI…
– Tem se fizermos uma paródia!
– Desenvolva.
– Pense bem: podemos utilizar todas essas siglas e as palavras sem siglas e colocá-las uma atrás da outra para formar uma letra de música. – Aurora entendeu o que ele queria dizer.
– Amígdala, PVN, CRH, AVT, hipófise anterior, POMC, ACTH, MC2R, STAR, cortisol. – Cantou Aurora, fazendo Afonso gargalhar. Aurora juntou-se a ele no riso.
– Ficou um mnemônico perfeito. – Aurora decidiu que deveria anotar a letra da música em seu caderno para mais tarde trabalhar nela. Precisaria de alguma coisa a mais para se tornar um mnemônico perfeito. A letra precisaria estar relacionada a alguma coisa do cotidiano, a alguma coisa que ela já conhecia para ser mais eficaz. Depois de anotar a tentativa de letra, Aurora voltou a olhar Afonso nos olhos. – Então, onde paramos e para onde devemos ir?
– Paramos na cascata do eixo HPI e devemos desbravar as ações amplamente complementares do sistema neural e endócrino. Não podemos deixar isso de fora.
– Não podemos separá-los por completo, como se eles não se influenciassem.
– Não podemos de jeito nenhum. Portanto, deixo registrado o seguinte: as projeções noradrenérgicas e adrenérgicas, por exemplo, para a zona hipofisiotrófica do PVN participam da ativação do eixo HPA. A acetilcolina (ACh) estimula a secreção de cortisol através dos receptores muscarínicos de acetilcolina (mAChRs) nas células adrenais. 
– Mais um trava-lingua? – Comentou Afonso.
– E esse é ainda mais difícil do que pgACC!
– E, mesmo sendo difícil, você decorou. 
– Nem ouse achar que me renderei as siglas.
– Nunca faria isso. – Disse Afonso, selando a promessa fazendo um X alternante com os dedos indicadores. – A acetilcolina estimula a secreção de cortisol através dos receptores mAChRs nas células adrenais… – Afonso repetiu mais ou menos o que Aurora disse segundos atrás. Ela não perdeu tempo e continuou de onde havia parado:
– Enquanto isso, o cortisol induz o acúmulo de ACh, resultando em danos teciduais e prejudicando a regeneração. Os neurônios liberadores de CRH projetam-se para o locus coeruleus, que envia projeções diretamente para os neurônios pré-ganglionares simpáticos e parassimpáticos, aumentando a atividade simpática e reduzindo a atividade parassimpática. – Aurora ficou em silêncio para deixar Afonso mais curioso. – E não para por aí! – Alertou ela. – Estudos já revelaram que outros neurotransmissores, como glutamato, dopamina e serotonina, têm uma relação estreita com esse eixo.
– Deve ser maravilhoso descobrir algo assim, ser o pioneiro. – Comentou Afonso em tom sonhador.
– Deve mesmo. 
– Queria ser o pioneiro de alguma coisa.
– Não fale como se tivesse desistido antes mesmo de tentar! Talvez, você seja o primeiro pernambucano a ganhar um Nobel.
– Será?
– Você tem total capacidade.
– Você também, senhorita Aurora.
– Então, seremos os dois primeiros pernambucanos a ganhar o Nobel… Ou em áreas diferentes ou em colaboração.
– Gostei mais da colaboração. – Aurora sorriu. – Então, ainda existe alguma informação curiosa sobre o eixo HPI dos peixes para compartilhar?
– Existe uma informação curiosa, mas não sobre o eixo HPI.
– Sobre o quê, então?
– Sobre o sistema neurossecretor caudal (SNSC). Já ouviu falar? – Afonso negou. – Ele é importantíssimo para a resposta ao estresse em peixes. Além dos sistemas neuroendócrinos comuns, os peixes possuem esse sistema neuroendócrino distinto localizado na extremidade caudal da medula espinhal, o SNSC. 
– Os trava-línguas não param de aparecer. 
– Você não me deixará mais em paz, não é?
– Você sabe a resposta para essa pergunta. – Aurora fez uma careta que fingia chateamento. 
– No fundo, eu sei que você está feliz por saber que eu não a deixarei mais em paz… – Aurora não respondeu a afirmação, apenas voltou a falar do sistema endócrino incomum dos peixes.
– Este sistema compreende um órgão neuro-hemático conhecido como urófise e neurônios neuroendócrinos magnocelulares sintetizadores de peptídeos, denominados células de Dahlgren. 
– Como se escreve?
– Dahlgren?
– E isso importa?
– Importa para minha curiosidade.
– Depois vocês pesquisa no seu celular. Agora, presta atenção… O SNSC desempenha papéis importantes na osmorregulação, termorregulação e outras respostas ao estresse, incluindo toxicidade por amônia, hipóxia, isolamento e submissão. – Afonso percebeu que eram sempre os mesmos fatores que apareciam nas pesquisas sobre estresse, provavelmente por serem reproduzíveis. – As atividades do SNSC são inervadas pelo mesencéfalo e bulbo, seguidas pela liberação de neuropeptídeos na circulação sanguínea através da veia caudal. Vários neurotransmissores, incluindo dopamina, adrenalina, serotonina, taurina, óxido nítrico, Glu e GABA, regulam as atividades de disparo das células de Dahlgren por meio de seus respectivos receptores no SNC, refletindo a comunicação entre o sistema nervoso e o SNSC.
– Será que outros vertebrados também têm um sistema endócrino incomum?
– NÃO ACREDITO! – Disse Aurora, alarmada. Afonso se assustou.
– O que foi?
– Falamos de toda a cascata do eixo HPA ou HPI, mas não dissemos os efeitos que os corticosteroides têm sobre o corpo.
– Você me assustou! – Aurora riu.
– Desculpa. Não foi de propósito. – Era a vez de Afonso rir. – Quais são os efeitos dos corticosteroides? – Afonso levantou a mão para contar os efeitos que conhecia. 
– Aumento nas concentrações de glicose no sangue; alteração no comportamento; inibição do crescimento; inibição da reprodução; e modulação do sistema imunológico.
– Sabia que um aumento experimental nos níveis circulantes de corticosterona em chapins-de-salgueiro em vida livre afetou o comportamento de dispersão de forma diferente em juvenis e adultos durante o período de formação dos bandos que se estende de julho a setembro? – Afonso não sabia. – Os adultos não abandonaram seus territórios, enquanto a maioria dos juvenis tratados com corticosterona desapareceu da floresta. Portanto, é provável que a corticosterona seja um fator envolvido no comportamento de dispersão de juvenis de chapim-de-salgueiro no início do outono.
– E isso provavelmente não é nada bom para a sobrevivência desses juvenis…
– Provavelmente não, mas é uma questão aberta, ainda sem resposta. – Nesse momento, Aurora decidiu entrar em ação. Decidiu lutar e não fugir. Ela se aproximou de Afonso de maneira abrupta, ficando a poucos centímetros dele. – Como é a música do eixo HPA? – A proximidade de Aurora deixou Afonso paralisado. Só lutarei se você me disser. – Afonso fechou os olhos tentando resgatar a letra de Aurora. Demorou mais do que ele gostaria de admitir. 
– Amígdala, PVN, CRH, AVT, hipófise anterior, POMC, ACTH, MC2R, STAR, cort… – Aurora não esperou Afonso terminar a palavra para entrar em ação…

(Continua...)

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