01 de Agosto de 2007
O segundo semestre do Colégio Serrapilheira começaria em uma Quarta-feira, para a revolta dos estudantes – ou da maioria deles – que acreditavam que as aulas só deveriam iniciar em uma Segunda-feira. O diretor, por outro lado, acreditava que adiar o recomeço das aulas seria um equívoco. O início de Agosto ser justamente no meio da semana parecia, segundo ele, um sinal da vida – apesar de ser apenas consequência de uma semana que tinha sete dias e de um ano que não era múltiplo de sete, fazendo com que, ano após ano, a data mudasse de dia – de que aqueles três primeiros dias poderiam ser utilizados para apresentação dos novos alunos e para fazer alguns comunicados. Seriam três dias que preparariam o terreno para o que viria na segunda metade do ano letivo. Três dias para os estudantes voltarem à realidade. Esses três dias seriam aqueles cinco minutinhos que todo mundo precisa antes de levantar.
A Menina estava na oitava série e finalmente fazia parte do grupo que já tinha completado 14 anos – o aniversário dela caía no dia do amigo, dia 20 de Julho. Como o pai saía cedo de casa para trabalhar – e ir andando exigia que ela caminhasse um percurso de meia-hora –, a Menina era uma das primeiras a chegar ao colégio. O lado positivo é que sempre tinha um caderno de questões de matemática para resolver – seu passatempo favorito. Ainda existem pessoas extremamente sensatas no mundo. Antes de pendurar a bolsa na cadeira, a Menina pegou os óculos de grau – item indispensável para momentos como aquele –, a apostila de exercícios e o estojo . Ela estava na página 39. Apenas uma questão não tinha sido feita. As demais estavam resolvidas de todas as maneiras que a Menina tinha encontrado. Ela nunca se contentava com uma única resolução. Era sempre melhor abordar as questões por diferentes ângulos.
Nesse mesmo momento, o Menino chegava ao colégio. Era seu primeiro dia naquela escola. Depois de muitos anos longe da cidade onde tinha nascido e vivido até os dois ou três anos, o pai do Menino recebeu uma oferta irrecusável de trabalho e pôde voltar para “casa”. Nenhum dos três filhos pareceu se importar com a mudança repentina, o que era bastante estranho vindo de três adolescentes, ou, como todo mundo dizia: “aborrecentes”. A mãe do Menino também não se importou. Estava cansada do ritmo da cidade (muito) grande. Além disso, conseguiu remoção para a Universidade Federal de Serrapilheira – ela era professora concursada de engenharia civil. O Menino esteve no colégio para fazer a matrícula duas semanas antes. Lembrava com clareza dos corredores que levavam a coordenação. Por isso, decidiu tentar a sorte por lá. A sala era dividida em dois compartimentos, a antessala – onde os estudantes podiam esperar, porque a porta sempre estava destrancada, como o próprio coordenador explicou 14 dias antes – e o escritório propriamente dito. Na porta de acesso, havia um aviso escrito à mão que dizia: “Entre, ligue as luzes e espere – se em pé ou sentado, é você que decide. Daqui a pouco, eu chego”. O Menino preferiu sentar. Ficar em pé parecia um esforço extra desnecessário, principalmente, porque ainda faltava mais de meia-hora para o início da primeira aula. Depois de permanecer sentado – e entediado – por alguns minutos, ele ficou de pé e se aproximou do quadro de avisos azul fixado na parede lateral do ambiente.
Enquanto isso, a Menina continuava resolvendo questões de matemática para passar o tempo. Depois que finalizou a página 41, concluiu que era hora de parar. Continuaria depois. Como ninguém tinha chegado, ela decidiu ir à coordenação descobrir o poema do dia – Marquinhos era um entusiasta da poesia brasileira e sempre escolhia um título diferente para surpreender os (muitos) curiosos. Como sempre acontecia na véspera da volta às aulas, o Coordenador foi ao colégio para deixar o poema do dia no quadro de avisos, porque, no colégio Serrapilheira, não havia um dia de aula sem um poema cuidadosamente selecionado por ele. Para sua surpresa, porque o Coordenador nunca chegava cedo – na verdade, ele tinha um sério problema com o relógio –, a luz da antessala estava acesa e a porta, entreaberta. No entanto, não era o Coordenador que estava na sala, mas um estudante alto – concentrado em um dos textos do quadro de avisos azul (que trazia mais do que avisos, obviamente). A cabeça estava levemente inclinada para baixo. Para não assustá-lo, a Menina deu dois toques na porta e esperou. O Menino levantou a cabeça, deixando a reportagem do jornal do colégio para depois (ele teria tempo para lê-la em outro momento), e, após um instante a mais, se virou devagar. Ao completar a meia volta, os olhos esverdeados do Menino encontraram os olhos verdes assustadoramente claros da Menina. Ambos sentiram um arrepio percorrer o corpo. Nenhum deles falou. Os dois prolongaram o silêncio por um bom tempo, absorvendo aquele momento, ainda que inconscientemente, em detalhes. A Menina não sabia o quê, mas existia algo extremamente familiar nele, ao mesmo tempo em que tinha certeza absoluta de que nunca o vira antes. O Menino também tinha essa mesma sensação estranha de familiaridade e novidade. Aquela conversa silenciosa, que parecia longe de acabar, transbordava encantamento tanto dela quanto dele – encantamento esse traduzido no surgimento lento de sorrisos tímidos, quase imperceptíveis, e em uma busca um no outro por algo que nem eles sabiam dizer o que era. O momento compartilhado cabia em pouco menos de dois minutos, mas, para os dois, a percepção distorcida do tempo o transformava em um instante infinito com final iminente desconhecido. Quando o silêncio não trouxe respostas, a Menina deu o primeiro passo para conhecer aquele estranho tão familiar:
– Lívia. – Apresentou-se a Menina.
– Lívia. – Repetiu o Menino, como se precisasse pronunciar o nome da Menina em voz alta. Ele gostou de ouvir a própria voz dizer o nome dela – Francisco. – Apresentou-se o Menino. Em seguida, ele limpou as mãos na calça e estendeu a mão esquerda para a Menina. Ela aceitou. Mais uma vez, um arrepio percorreu o corpo de ambos. Os dois ficaram em silêncio novamente, tentando decifrar aquela sensação estranha e maravilhosa.
– Francisco. – Repetiu a Menina, ainda segurando a mão do Menino. Ela sentiu a mesma necessidade de pronunciar o nome dele em voz alta. Ela, no entanto, não sabia explicar por quê. – Prazer em conhecê-lo! – Francisco sorriu, fazendo Lívia sorrir junto. O momento passou quando a luz da sala se apagou, fazendo os dois olharem para cima. Um segundo e meio depois, a lâmpada acendeu. Francisco abaixou a cabeça antes de Lívia e, ao observá-la novamente, sorriu mais uma vez. A Menina fez o mesmo quando os seus olhos encontraram os olhos do Menino de novo. Nesse momento, eles perceberam que ainda seguravam a mão um do outro. Lívia, então, soltou a mão de Francisco com delicadeza e desviou o olhar, sentindo-se um tantinho (o que era incomum da parte dela) sem graça. Para espantar o embaraço, ela ajeitou o chapéu lilás, com um sol bordado na frente, que usava e em seguida endireitou os óculos de grau. O Menino riu, a Menina também, e o olhar de um encontrou o olhar do outro pela terceira vez. O silêncio se fez presente novamente. Ele, o silêncio, parecia querer dizer algo que o Menino e a Menina ainda não conseguiam escutar. – Você é novo na cidade? – Perguntou a Menina, de repente.
– Não exatamente. – Respondeu o Menino. Lívia esperou Francisco voltar a falar. Não havia necessidade de fazer outra pergunta para que ele explicasse. – Eu nasci aqui, mas passei quase a vida inteira morando em outra cidade.
– Voltou para ficar?
– Acredito que sim. – Um instante a mais se passou antes de o Menino voltar a falar. – Meus pais são daqui e já fazia algum tempo que minha mãe queria voltar para casa. – Nesse momento, Lívia juntou os pontos. O Pai da Menina, Luís, tinha um Melhor Amigo de infância que estava de volta à cidade. A família de Lívia, inclusive, ofereceria uma pequena festa de boas-vindas no final daquela semana, na tarde de sábado, para receber toda a família do Melhor Amigo do Pai. A Menina sabia que o Melhor Amigo do Pai tinha três filhos e que um deles se chamava Francisco. Um dia desses, por exemplo, Luís comentou que o filho do meio tinha a mesma idade dela.
– Você é filho de Pedro e Laura! O jogador de Vôlei. – Uma expressão de reconhecimento passou pelo rosto do Menino, revelando que ele também tinha juntado os pontos.
– E você é filha de Luís e Helena! A pianista apaixonada por matemática. – A Menina sorriu. Gostou de saber que Francisco a conhecia como a “pianista apaixonada por matemática”.
– Nós já nos conhecemos antes? Não com dois ou três anos de idade, mas um pouco mais velhos?! – Perguntou a Menina, apesar de ter a certeza de que não o conhecia, de que nunca o vira antes. Não em uma fase da vida que sua memória já fosse capaz de registrar lembranças dos momentos vividos.
– Nós nunca viemos à Serrapilheira depois que nos mudamos.
– E eu nunca saí de Serrapilheira… – Então, o que explicaria aquela sensação de familiaridade que a Menina e o Menino sentiam?
– Mas seu pai já foi a minha casa algumas vezes. Ele foi palestrante em alguns congressos na cidade onde morávamos.
– Uma cidade no extremo sul do Brasil, se não me engano. – Francisco assentiu.
– Você é muito parecida com o seu pai. – Comentou Francisco, mais para si mesmo. Ele se perguntava se era por isso que Lívia parecia tão familiar. Ele concluiu que não. – Luís comentou que você quer prestar vestibular para Matemática… É verdade? – A Menina assentiu.
– O que mais você ouviu a meu respeito? – Perguntou a Menina, curiosa. O Menino ficou vermelho. A Menina percebeu. – Pode falar. Eu conheço o meu pai. Ele não falaria nada de ruim ao meu respeito. – Francisco pensou um pouco antes de falar, sem ter certeza de que Lívia não ficaria ofendida.
– Ele disse que você é encrenqueira, que você arruma muita confusão no colégio. – A Menina riu alto. O Menino gostou de ouvir o som da risada da Menina.
– Meu pai nunca me decepciona. – Uma expressão de alívio passou pelo rosto de Francisco. Lívia achou graça. – Eu só arrumo confusão quando acho que algo não está certo. – “Defendeu-se” Lívia. – Conhecendo meu pai como eu conheço, ele deve ter contado umas duas ou três histórias para confirmar a acusação.
– Contou mesmo. – Confirmou Francisco. Os dois riram. – Fiquei impressionado com seu eu revolucionário. – Foi a vez de Lívia ficar vermelha.
– Pequenas revoluções culminam em grandes mudanças. – Afirmou a Menina. O Menino concordou com a cabeça. O silêncio invadiu a conversa novamente, e a Menina e o Menino sustentaram o olhar um do outro, sentindo algo que ainda não sabiam nomear. O momento foi interrompido pela chegada de Marquinhos, mas não de imediato.
– Bom dia! – Como nenhum dos dois pareceu ouvir. Ele repetiu aquela mesma saudação um pouco mais alto. – BOM DIA! – A Menina e o Menino levaram um baita susto.
– Marquinhos! – Respondeu a Menina, virando-se de costas para o Menino. Marquinhos tinha uma expressão de entendimento no rosto, mas nem Lívia nem Francisco perceberam.
– Marcus! – Respondeu o Menino, ao mesmo tempo em que a Menina chamou o Coordenador pelo nome.
– Você chegou cedo. – Completou a Menina. O Coordenador olhou o relógio e ficou surpreso com aquele feito. Lívia tinha razão.
– Não se acostume. Isso provavelmente não irá se repetir. – A Menina e o Menino riram. – Francisco, vejo que você já conheceu Lívia, a encrenqueira do colégio. – A Menina estirou a língua para o Coordenador.
– Eu não usaria esse adjetivo para descrevê-la. – Aquelas palavras surpreenderam Lívia, que deu meia-volta pra ficar frente a frente com Francisco.
– Que adjetivo você usaria, então? – Perguntou o Coordenador. Olhando nos olhos da Menina, o Menino respondeu:
– Ainda não sei. – A resposta de Francisco fez Lívia sorrir.
– Quando você descobrir, por favor, compartilhe comigo. – Pediu Marquinhos em tom de brincadeira. – Por agora, vamos conversar sobre o seu futuro. Lívia, você poderia nos dar licença? Vocês terão tempo de sobra para se conhecerem. – Ainda de costas para o Coordenador, a Menina assentiu.
– Até mais tarde!
– Até mais tarde! – Lívia, então, saiu da coordenação e voltou à sala de aula.

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