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As aventuras de Goiaba

Chegamos ao centésimo post OFICIAL do blog! E nada melhor para comemorar essa data do que trazer como protagonista o cãozinho da Menina, não é mesmo! Dedico este conto a Wintinho e a Baltinho, meus amores de quatro patinhas que inspiraram este conto. Vocês me ensinam muito todos os dias. Obrigada por existirem. Amo muito vocês dois! Daqui até o infinito e além.

P.S.: todas as hitórias de Goiaba aconteceram na vida real através de meus dois amores caninos.



Terça-feira, 18 de dezembro de 2007

 

            A semana ainda estava no início, mas o final do ano se aproximava. O ano letivo da Menina terminou dia 23 de novembro – ela passou por média em todas as disciplinas (como já era esperado por todos aqueles que a conheciam). A Menina era apaixonada por todo tipo de conhecimento, desde matemática a geografia e tudo o que há entre essas duas disciplinas e o que está além delas. Dois mil e sete foi um ano cheio de surpresas. Primeiro, Helena, a Mãe da Menina, descobriu que seria mãe pela terceira vez. A irmãzinha de Lívia, Júlia, nasceria no final de janeiro de 2008. Em 15 de julho, Luís, o Pai da Menina, trouxe para casa um integrante de quatro patinhas (de exatamente dois meses – a data de nascimento era 15 de maio de 2007) sem consultar o restante da família. Lívia e Miguel, o Irmão Mais Velho da Menina, amaram a novidade, enquanto Helena se preocupava com a saúde da filha mais nova; afinal, ela chegaria em poucas semanas. No final, Helena concordou que era uma boa ideia aumentar a família. A mãe da Menina foi totalmente convencida depois que o cãozinho lambeu todo o leite que ela tinha derramado. A partir daquele momento, ele virou (não intencionalmente) a vassourinha particular e especial da casa. Tudo aquilo que caía no chão sumia em questão de segundos. Era um crime não ilícito que não deixava provas, rastros. O nome do integrante quadrúpede foi escolhido por Lívia, duas semanas depois de sua chegada. Ela decidiu por Goiaba, porque, todas as manhãs, durante os primeiros catorze dias, as goiabas, que ficavam na fruteira, amanheciam mordidas. Apesar de o culpado ser óbvio, a família de Lívia demorou para perceber quem era o responsável por trás daqueles “crimes”. Foi em uma manhã de domingo (dia 29 de julho de 2007). A Mãe da Menina flagrou Goiaba brincando com uma delas na cozinha e reuniu a família para revelar quem era o meliante até então desconhecido. Foi exatamente nesse momento que a Menina sugeriu que o nome do novo integrante deveria se chamar Goiaba. Todos gostaram da ideia e o batizaram, ali mesmo, na cozinha, com o nome da fruta que ele tanto parecia apreciar (seja pelo gosto, seja pela possibilidade de fazê-las de brinquedo). Desde sua chegada, Goiaba adaptou-se bem a casa. Tão bem que ele se sentia dono de toda área que a casa ocupava e aproveitava todos os móveis como ninguém. Em um final de semana, por exemplo, Miguel e Lívia encontraram Goiaba, deitado na cama dele, tirando um merecido cochilinho. Não era culpa de Goiaba querer aproveitar aquele colchão tão confortável. Miguel sempre o colocava em cima da cama, o que certamente era um convite para que ele descansasse por ali sempre que tivesse vontade. Ao pegá-lo no flagra, a Menina e o Irmão mais velho acharam graça. Certamente, aquela história e muitas outras seriam algum dia registradas em palavras e revisitadas sempre que algum gatilho as trouxessem de volta a consciência.

            Mais de cinco meses depois de sua chegada, Goiaba continuava transformando os dias com sua pureza. Era cada uma que o cãozinho aprontava que a vida parecia ter sido colorida por tons mais alegres e por melodias mais divertidas. Essas travessuras, esses recortes engraçados, ajudavam, principalmente, em momentos de maior fragilidade emocional, como acontecia no presente. A Menina estava sentada, com os pés dobrados, na cadeira do papai, em frente à televisão, assistindo à novela das seis com um semblante vazio (era uma expressão sem vida pela partida precoce, duas semanas antes, de Vovó Berenice), quando Goiaba subiu no sofá ao lado com a sua melancia de pelúcia. Ela observou o irmãozinho de quatro patinhas deitar e se divertir com o seu brinquedo favorito. O Pai da Menina apareceu na sala nesse momento decidido a conversar com ela (Luís achava que já tinha dado tempo suficiente à filha do meio; era hora, acreditava ele, de entrar em cena). Ao vê-la observando Goiaba, no entanto, Luís resolveu esperar. Ele sentia que Goiaba estava prestes a aprontar uma das suas. Essa possibilidade deixava o Pai da Menina feliz, porque o silêncio dela preocupava toda a família. Fazia duas semanas que Lívia não dizia uma única palavra. Fazia duas semanas que ela guardava dentro de si toda a dor que sentia. Em duas semanas, aquela era a primeira vez que a Menina saía do quarto. As imagens do acidente eram constantemente repetidas em seus pensamentos. O momento em que um carro perdeu o controle, subiu a calçada e invadiu o café onde a Menina e a Avó estavam, deixando rastros de destruição pelo estabelecimento, permanecia vívido em suas lembranças: o automóvel atingiu a mesa onde Vovó Berenice estava sentada, procurando alguma coisa na bolsa enquanto esperava a neta voltar do banheiro, bem na hora que Lívia voltava ao salão principal do café. A Menina viu tudo acontecer em questão de segundos: em um momento, observava a Avó mexer na bolsa, à procura de algo com determinação; no momento seguinte, via Berenice ser empurrada junto a mesa e as cadeiras em direção ao balcão de atendimento. Lívia ouviu-se gritar em um tom do mais puro horror. Ela tentou correr em direção a Avó, mas alguém a segurou por dois segundos. Quando o carro enfim parou, a Menina correu para o lado de Vovó Berenice. Ela estava deitada no chão, em meio ao caos de objetos que já não tinham mais forma definida, com o olhar sem foco. Uma poça de sangue se espalhava ao seu redor. Alguma coisa a tinha perfurado na região do fígado. Três segundos depois, o tempo de reação ao acidente, a garçonete ligou para a emergência e pediu socorro com a voz trêmula. Lívia tentou conter o sangue com as mãos. 

– Vó! Vó! Sou eu! Vó! Vó! – Chamava a Menina, com desespero na voz. As lágrimas caíam sem pedir licença.

– Estrelinha, eu te amo muito. – Disse a Avó, um instante antes de perder a consciência. 

– NÃO! – Gritou a Menina. Apesar de tudo ao redor estar em movimento, naquele momento, ela não percebia conscientemente as informações que os seus sentidos captavam. Nunca tinha ouvido um barulho tão silencioso na vida. Foi aterrorizante. Quando a ajuda chegou, infelizmente, era tarde demais para a Avó da Menina. 

– AU! AU! – O som de um latido próximo trouxe Lívia de volta ao presente. Em algum momento, enquanto revivia aquele pesadelo, Goiaba deixara a melancia cair e, agora, olhava para a Menina como se quisesse sua ajuda. Ele olhava para a melancia, depois para a menina, depois para a melancia de novo. Uma, duas, três vezes. Ela não se mexeu. Goiaba deitou e tentou pegar a melancia de pelúcia sem descer do sofá. Não conseguiu. Tentou, então, chamar a atenção da Menina uma última vez. Ela permaneceu parada, mas sua expressão mudou. Um meio-sorriso surgiu no canto de sua boca ao perceber o que o pequeno malandrinho queria que ela fizesse. Ela decidiu esperar. Demorou, mas, por fim, Goiaba se rendeu. Ele desceu do sofá, pegou a melancia e voltou a subir para continuar brincando. A Menina riu. Riu de verdade, mas, o riso, depois de poucos segundos, cedeu o seu as lágrimas. O choro era rasgado, desesperado, de uma dor excruciante e sufocante. Goiaba parou o que estava fazendo e encarou a Menina. Em seguida, Goiaba largou a melancia (que caiu no chão), desceu do sofá mais uma vez e ficou de pé, com as patinhas apoiadas nas pernas da Menina (que não percebeu), diante da cadeira do papai. Ele observou a Menina por um tempo, tentando entender. Sua cabecinha pequenininha se inclinava em ângulos diferentes de um lado para o outro. Da esquerda para a direita, depois da direita para a esquerda, em um ciclo que durou alguns segundos. Lívia cobria o rosto com as mãos e chorava alto, deixando toda aquela dor transbordar através de lágrimas, de soluços e de movimento. O Pai da Menina esperou – ela ainda não o tinha visto. Ele compreendeu que, naquele momento, a filha precisava mais daquele integrante de quatro patinhas do que qualquer outra coisa. Goiaba subiu na cadeira do papai, assustando a Menina por uma fração de segundo, e começou a lambê-la como se os “lambeijos” fossem o merthiolate ideal para as feridas do coração. Talvez, ele estivesse certo, porque aquele carinho tão puro e verdadeiro desfez um pouco da angústia que a Menina carregava no peito há duas semanas. Em sinal de gratidão, Lívia abraçou Goiaba e foi abraçada por ele e, naquele momento, mais do que em qualquer outro, entendeu por que a história dizia que os cães são os melhores amigos dos seres humanos.

           

 


Comentários

Anônimo disse…
Senti meu afilhado pet preferido em muitas linhas desde lindo conto.
Priscilla Virgínio
Danielle disse…
Adorei o conto! Esse conto é uma mensagem pra as pessoas que não sabe o carinho, conforto mais infinito que o ser o humano tem a receber de um ser que não cobra a ninguém o amor infinito!
Anônimo disse…
E tem muito dele mesmo! A história da melancia e do abraço pet são histórias dele! É muito dele e de Wintinho! Obgd por visitar o blog e deixar um comentário, Prisci!
Chaconerrilla disse…
E tem muito dele mesmo! A história da melancia e do abraço pet são histórias dele! É muito dele e de Wintinho! Obgd por visitar o blog e deixar um comentário, Prisci
Chaconerrilla disse…
É mesmo! O amor deles é infinito! Eles nos dão tanto amor! Tanto conforto! Tanto carinha! O amor mais puro!
Chaconerrilla disse…
Obgd, anônimo! Ele aparecerá mais! Pelo menos, tenho a intenção de colocá-lo nos contos que virão!

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